Vai comer chocolate na Páscoa?
O Instituto Fonte, em datas e momentos especiais, tem procurado oferecer para sua rede de amigas e amigos, reflexões como presentes. Nessa Páscoa, oferecemos um belo texto de Cristiane Félix, grande parceira, e a linda ilustração do talentoso Rodrigo Cabral, criada especialmente para esse momento. Agradecemos aos dois pelo carinho.
Feliz Páscoa.
Texto: Cristiane Felix*
Ilustração: Rodrigo Cabral**
Resgatar o sentido da Páscoa é sempre um desafio em meio ao apelo dos chocolates que invadem as prateleiras nesta época do ano. Em que pese o singelo e bonito ato de se ofertar um chocolate (doçura) a alguém que se gosta, não podemos deixar de enxergar como o comércio se apropriou de todo este simbolismo para incrementar suas vendas, estimulando o consumo, principalmente em datas comemorativas como é o caso da Páscoa. É quando o coelho, símbolo da fertilidade, assume seu lugar de destaque nas versões chocolate branco, meio amargo, preto. E os ovos, dos mais diversos tamanhos e preços, com brindes ou “recheados” de figuras de super heróis, invadem as prateleiras, forjando a ideia de que “o doce mesmo é o presente que vem dentro do ovo” (com sorte, uma bonequinha da moda ou um carrinho miniatura).
E, claro, as crianças adoram a Páscoa. Fazem suas encomendas não só de sabores mas, principalmente, de suas marcas prediletas, acompanhadas das “surpresinhas” embaladas no melhor estilo Walt Disney, Hot Wheels, Monstros S.A. E os pais, listinha em punho, saem na busca pelo ovo ideal (eu já fiz incontáveis vezes!). E a Páscoa se resume ao dia feliz em que se recebe coelhos e ovos de chocolate com brinquedinhos. Oi?
Até que minha filha parou de me pedir chocolate, sob a alegação de que este tinha se tornado mais um habito de consumo, que desvirtuava o verdadeiro significado da Páscoa. Oi, de novo?

É claro que eu já tinha pensado sobre isso, inclusive todas as vezes que tinha que comprar os ovos para presenteá-la. É claro também que, mesmo assim, com tantas reflexões, eu continuava comprando os ovos, afinal era compensador ver a alegria dela ao receber o chocolate com a surpresa. E assim seguia a minha humanidade…
Quase sempre sabemos das coisas, refletimos sobre elas e continuamos no mesmo lugar. Neste caso na mesma prateleira de supermercado. Simples assim. E apesar de ter tantos elementos ao nosso redor, continuamos promovendo o coelho e o “Kinder Ovo”.
Desta vez, o questionamento de Clara, minha filha, trouxe-me de fato um sabor especial. Ela percebeu que a mudança está em fazer escolhas conscientes. Ainda que isso represente a renúncia do chocolate, que aliás, ela tanto gosta. E eu também!
Fiquei pensando no brinde precioso que Clara me ofertou com aquela reflexão sobre a Páscoa: de que é preciso recuperar sentidos. E se a Páscoa nos traz a ideia de libertação, renascimento, ressurreição, por que não começar por aí?
- Do que preciso me libertar?
- O que precisa renascer que estava adormecido em mim?
- Qual é o novo que preciso fazer nascer no mundo?
E essas perguntas foram ofertadas a mim como um presente de Páscoa, por Clara Felix. E não tem chocolate que supere o sabor da transformação que uma reflexão verdadeira pode nos trazer. E vocês devem estar se perguntado: e aí, vai comer chocolate na Páscoa? E a resposta é sim, porque como chocolate sempre. Mas há uma diferença entre comer chocolate e deixar a Páscoa se consumir no chocolate, ou melhor, se resumir a ele. E essa reflexão foi o presente mais doce que a minha filha pode me dar. Obrigada meu amor!
Desejo a todos uma Páscoa doce, transformadora e cheia de sentidos!
*Cristiane Felix é mãe de Clara, Jornalista, profissional de Desenvolvimento Social, Profidiana (nome carinhoso de ex-participantes do Programa Profides: Profissão Desenvolvimento), integrante do GRA – Grupo Recife de Aprendizagem.

**Rodrigo Cabral, enquanto ilustrava essa linda imagem de Páscoa.




Consultor de processos de desenvolvimento pelo Instituto Fonte e fundador da Associação Crianças do Vale de Luz. Desde 1979 trabalha em instituições sociais, em especial as que atuam no âmbito da infância e juventude, com gestão e desenvolvimento organizacional e apoiando o fortalecimento das pessoas nelas envolvidas. Atua como coordenador do Programa Mais Educação numa escola pública em Nova Friburgo, tendo sido diretor do Instituto de Educação de Nova Friburgo, da Escola Comunitária Municipal do Vale de Luz e coordenador regional (Região Serrana do Rio de Janeiro) da FIA/RJ. Realizou estágios no campo educacional e social na França, Suíça, África do Sul e Moçambique. É graduado em Pedagogia, com especializações em Pedagogia Waldorf e Pedagogia Social. É músico e contador de histórias; pratica e acredita na arte como instrumento de trabalho e de desenvolvimento pessoal e social. De Nova Friburgo (RJ), vive entre Nova Friburgo, Rio de Janeiro e São Paulo. Contato: 






(1) Consultora associada do Instituto Fonte desde 2015. Atua em processos de desenvolvimento/aprendizagem 


(1) Facilitadora de processos de aprendizagem e associada ao Instituto Fonte desde 2015. Desde 2002 atua em iniciativas e instituições sociais que militam pelas causas da juventude, educação e do meio ambiente nas áreas de formação, elaboração de projetos e mobilização de recursos. É idealizadora e gestora do Guardiões do Oceano, uma iniciativa de formação socioambiental para jovens que acontece há 10 anos em municípios do litoral de São Paulo. Também atuou como facilitadora na área de responsabilidade social de diversas empresas. Mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Educação Ambiental pela mesma universidade e especializada em gestão do terceiro setor pela FGV. Se formou nos programas do Instituto Fonte, Artistas do Invisível e Aprimora e atualmente é mestranda no Programa “Reflective Social Practice” pela Proteus Initiative e Alanus University (Alemanha). Acredita que o processo é o lugar a se chegar. Contato: 